Pequeno léxico de coisas esquecidas

Esqueço que gosto de cantar, que talvez eu esteja virando minha mãe, que tem gente que escuta música alta na praia, que tudo é melhor ao vivo, que mesmo os melhores amigos não sabem quando ligar para você, que várias pessoas não têm instagram e sobrevivem muito bem, que vale a pena levar caldo quando a água tá boa, que a melhor música do mundo é a brasileira, que esse sapato não é tão confortável assim, que pessoas que escutam têm muito a dizer, que preciso parar de comprar livros, que transar dá mais vontade de transar, que semana que vem tem feira do lavradio, que preciso comprar uma rede, que preciso começar uma horta, que tem que sair de casa para alguma coisa acontecer, que o cartão ainda não virou (droga), que mercúrio está retrógrado, que vale muito a pena sorrir para velhinhas fofas no ponto de ônibus, que vai ficar tudo bem (obrigada, velhinhas fofas), que crocs realmente não ficam bem em ninguém, que cachorros têm personalidades, que eu gosto de carnaval, que eu não gosto de carnaval… que eu gosto de carnaval, que as pessoas são universos, que montar barraca não é difícil, que viajar sozinha é aventura, que o mundo é grande, que as pessoas falam francês.

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Eu e Os Bichos ou Como meditar todos os dias me fez começar a amar meu cachorro e quero voltar a como era antes

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Eu não sou fã de cachorro. Nem de gato. Bichos em geral: not my cup of tea. Sei que dizer isso em voz alta, ou pior, dizê-lo na internet, é um crime imperdoável para muitos, mas é a verdade. Não é que eu ativamente desgoste de bicho, é mais uma indiferença. E, em geral, não é um problema— temos, eu e Os Bichos, um tipo de acordo implícito de nos ignorarmos mutuamente. Inclusive, para dois grupos (eu sendo um grupo formado pelas várias vozes da minha cabeça) que normalmente são péssimos em seguir regras, eu e Os Bichos nos saímos muito bem em manter o nosso acordo. E então, assim vivemos, eu e Os Bichos, numa relação fria e formal, apenas reconhecendo um ao outro quando é absolutamente necessário e nunca, nunca curtindo as fotos um do outro no instagram.

Porém, esse ano começou a acontecer uma coisa estranha. Eu tenho um cachorro. O nome dele é Paolo e ele é insuportável. Por que uma pessoa que não gosta de cachorro teria um cachorro?, você poderia bem perguntar. E eu diria que, por circunstâncias fora do meu controle (minha irmã tem um cachorro e moramos juntas), eu divido o espaço mais íntimo da minha vida com um cão. Que se chama Paolo. Pois bem, eu e o Paolo sempre tivemos uma relação que se mantinha dentro das diretrizes acordadas pelo Tratado de Comportamento Aceitável entre Eu e Os Bichos acima mencionado e que agora é aparentemente muito mais formal do que era a um parágrafo atrás. As coisas mudam de um parágrafo para o outro, não é mesmo? Às vezes eles, os parágrafos, entram em tangentes enormes e não voltam ao ponto da coisa estranha que começou a acontecer ao qual aludiram inicialmente. (Entra ou sai-se numa tangente? A se pensar. Outra coisa a se pensar: qual era a coisa estranha que começou a acontecer?)

Ah, sim. A coisa estranha que começou a acontecer esse ano: eu agora amo o Paolo. Como isso é possível?! Eu achei que você odiasse animais?! Isso quer dizer que você ama todos os animais agora?! Você vai virar vegetariana e finalmente comer uma dieta balanceada?! São todas perguntas que você poderia bem fazer neste momento às quais eu responderia: vou chegar lá, eu não odeio animais eu só sou indiferente a eles você obviamente não lembra do primeiro parágrafo, vamos com calma, eu disse calma.

Sim, é verdade, eu amo o Paolo. Começou aos poucos, pequenas transgressões, coisas que você acha que não vão fazer diferença mas que vão amontoando e de repente ele está te esperando na porta do banheiro enquanto você faz xixi e você está voluntariamente chamando-o de apelidos e mostrando fotos dele para velhinhas no ponto de ônibus. Você também está , aparentemente, falando com velhinhas no ponto de ônibus, mas esse é um assunto para outro momento. Porque o que é curioso sobre tudo isso é: por que agora? Eu e o Paolo moramos no mesmo apartamento há quase 5 anos, por que só agora e tão repentinamente somos melhores amigos? A resposta pode parecer descolada demais para ser verdade ou uma forçação de barra absurda mas não consigo pensar em nenhuma outra razão plausível. Para mim está claro que isso tudo está acontecendo porque eu comecei a meditar.

Eu medito informalmente há uns anos, mas esse ano comecei a levar a prática mais a sério. Agora, medito todos os dias, e dentre todas as repercussões dessa prática (algumas semi-miraculosas), a que foi mais inesperada foi essa. Você espera, em alguma medida, que meditar vá te tornar uma pessoa mais calma, que vá te dar mais foco, melhorar sua postura, sua respiração, sua ansiedade, etc, etc, mas não é algo que dizem às pessoas que começam a meditar que talvez um efeito colateral seja você começar a amar seu bicho de estimação. E, honestamente, acho que esse tipo de coisa deveria vir escrito na caixa. “CUIDADO: Pode causar amor por animais.” Deveria estar escrito em todos os mats de yoga, avisado antes de todos os mantras (apesar de que não podemos ter certeza que isso não é exatamente o que estão cantando durante os mantras). É importante ter todas as informações sobre o produto antes de comprá-lo! Afinal, vivemos numa sociedade onde somos consumidores primeiro e todo o resto depois, não é mesmo?

Mas agora é tarde demais. O despertar é um processo permanente. E temo que amarei o Paolo até o final dos meus dias. Porém, temo ainda mais o que esta perigosa prática pode significar para mim e para os outros pois é uma “moda” cada vez mais seguida no Brasil e no Mundo. Por isso conto minha história: para que ninguém tenha que passar pelo que eu passei. Now, you know.

Em busca da Aba perdida

Há, nesse momento, sete abas abertas no meu browser. Eu não era assim. Eu não gostava nem de ter duas abas abertas. Me distraía, me deixava nervosa e eu fazia de tudo pra resolver a dívida o mais rápido possível para voltar a ter uma janela só. Agora, a Aba Única é uma lembrança distante, a mais almejada fantasia. É o pote de ouro no final do arco-íris, a utopia máxima de uma vida hiperconectada. É o Everest da internet.

Tomada, porém, por uma nostalgia por esses tempos mais simples, resolvi ir contra o sistema, resolvi voltar à Aba Única.

A jornada para a Aba Única, como toda estimável escalada, requer um certo condicionamento. Durante horas, treinei minha mente e meu corpo com uma janela teste. O desafio era não deixar as abas crescerem. Toda vez que abria uma nova aba, tinha 15 segundos para decidir se ficava naquela janela (o que significava fechar a outra), ou se a fechava e voltava para a janela original. Foi difícil resistir, mas, após algumas horas de prática, senti-me pronta para enfrentar a tenebrosa Janela Principal.

A Janela Principal, sabe-se, nunca morre, apenas se transforma. Ela ganha e perde abas, mas nunca, nunca deve ser fechada completamente. Não se sabe ao certo o que acontece se você fecha a Janela Principal, mas tenho um conhecido que tem uma amiga cujo melhor amigo do irmão fechou a Janela e ele nunca mais foi o mesmo. Então, sabia que tinha que ter cuidado ao lidar com ela, mas estava disposta a enfrentá-la.

Abri a Janela Principal e suas sete abas. Esse bicho de sete cabeças Hercules nunca teve que enfrentar. Sorte a dele. Tentando canalizar a coragem herculana necessária para a tarefa pus-me a fechar a primeira das abas. Mas, por onde começar? Sabe-se que assim que se fecha uma aba do Facebook outra aparece em seu lugar dentro de cinco minutos. (Tantas semelhanças mitológicas, não é mesmo?) E se eu fechasse a aba do e-mail? Afinal, esses vejo mais no celular mesmo. Mas preciso mandar quatro e-mails hoje ainda e sei que se fechar vou esquecer. Não, o e-mail precisa ficar aberto por enquanto.

Vejo, porém, ao lado da aba do Facebook, um artigo. Clico na aba, é um artigo feminista que está aberto no meu computador há duas semanas porque ainda não tive “tempo” de lê-lo. Fecho a aba e perco 10 pontos feministas. Deusa me perdoe. Mas por outro lado, agora são apenas seis abas. Começo a ficar mais confiante e passo para a próxima aba. É um vídeo do Youtube de uma música que o crush postou na timeline. Imediatamente, sinto-me culpada por ter fechado o artigo feminista antes da música do boy e para limpar a consciência fecho a aba do Youtube também. Ai…

Duas fechadas, cinco pela frente. Agora já estou entrando no ritmo. As próximas duas abas são aquelas que você usa para mentir para si. Você sabe do que eu estou falando. São as páginas com passagens de avião e/ou hostels de viagens que você acha que vai fazer mas que você nunca, nunca, de fato vai fazer. Adeus Índia. Adeus Inhotim. Isso doeu de verdade, as mais difíceis até agora com certeza. E as coisas só pioram daqui pra frente.

As três janelas que restam são as mais ilusórias. São elas: Facebook, e-mail e Netflix. Tomo coragem e finalmente escrevo meus e-mails, demoro um pouco e entro no Facebook três vezes antes de acabá-los. Fecho a aba. Agora sim. Facebook e Netflix, as últimas abas. Espera, algo está errado. Se a última aba que resta é o Facebook ou a Netflix o que isso diz sobre mim? Eu traí a causa feminista! Eu acabei com sonhos de viagens futuras! Eu não vou ter assunto com o crush! E tudo isso pra que? Não, recuso a dar-me à procrastinação a essa altura, não serei definida por uma Aba Única que vai contra os princípios da própria Aba Única! Agora não há saída, preciso fazer o impensável. Arrasto o mouse até o ícone vermelho e respiro fundo.

(Quero que seja notado que durante a escrita desse texto eu olhei o facebook apenas 7 vezes.)

O fim

Fui tomada por uma história. Ela permeava todos os instantes e todos os centímetros. Se escondia em cada sombra e cada raio de luz. Ressoava em toda música e todo silêncio. Agora, os instantes são instantes, os centímetro centímetros. As sombras apenas sombras, a luz apenas luz. A música é música e o silêncio, o silêncio é de ensurdecer.

Porque eu fui tomada por uma história. Ela me acolheu como uma criança, me deu dever de casa. Ela me mostrou caminhos sem me dar direção. Ela me organizou e me entregou ao caos. Me deu razão para escutar o mundo e também para separar-me dele. Ela me deu uma voz e um dicionário. Mas ao dar-se vida, dela me roubou.

Me roubou de organizar meus livros. Me roubou de ver o sol nascer. Me roubou da música. Dos domingos. Da Lapa (o que não é tão ruim assim). Do tédio, da calma, do nada e de mim. Me roubou das minhas próprias histórias.

As histórias me roubam de mim, me tomam por inteira e me ocupam. Porque, a verdade  pouco conveniente é que para ser narradora, preciso abrir mão de ser personagem. Não dá para ser os dois ao mesmo tempo, o que gera um verdadeiro impasse. Eu amo histórias. Amo criá-las, narrá-las, mas acho que narro porque a vontade real é de vivê-las.

Quando era criança e ia ao cinema assistir àquelas histórias fantásticas em mundos mágicos eu queria viver aquilo, não vê-lo, nem mesmo criá-lo. Mas ao contar uma história, qualquer que seja, abro mão de viver as minhas histórias. Se estou descrevendo o momento, não posso estar nele, não estou aqui, porque o aqui já não basta. Porque sem a história os instantes começam a ficar parecidos e os centímetros já não se diferenciam. Os dias que são iguais se juntam, se confundem e são um só e perco as pequenas coisas que fazem a diferença. Vestir o momento é deixar de dar-lhe nome, e esse vazio, esse silêncio, é a coisa mais assustadora que existe.

Mas então o que fazer? O que escolher? A vida é feita tanto de átomos quanto de histórias. Não tenho uma resposta no momento. Encontro-me no silêncio entre batidas cardíacas, no vazio entre o inspirar e o expirar. Mas quando outra história me visitar, te conto.

 

O Espaço-Tempo e outras mentiras

N’outro dia fui assistir a um filme. Era um filme daqueles bastante intelectuais e contemplativos e demorou para alguém dizer a primeira palavra. Quando, porém, esse alguém, finalmente, falou, foi, para minha grande surpresa, em francês. Surpresa porque, eu, prisioneira do presente, esqueci que as pessoas falavam francês, que essa era uma opção. E que alívio, que bom saber que as pessoas falam francês. Que bom lembrar. Tão bom que até vale a pena esquecer.

Há, dizem por aí, três tipos de pessoas: as que vivem no passado, as que vivem no presente, e as que vivem no futuro. Não acho que seja possível estar perpetuamente em um ou outro— transitamos, é verdade, entre os três. Mas em uma medida ou outra, escolhemos uma prisão.

Ir ao mercado. Fazer almoço. Escrever. Ir à análise. Estudar para prova. Escrever. Meditar. Lavar roupa. Escrever. Entrar em crise. Sair da crise. Escrever. Organizar livros. Organizar armário. Organizar vida.

Escrever. (Adivinha que tipo de pessoa eu sou.)

Surge aqui, porém, uma questão. “A” questão, talvez. Porque, se somos honestos, por estarmos vivos (onde a vida implica, necessariamente, a morte), o único lugar real é o presente. O passado escapa assim que se torna. O futuro, inverso perfeito, morre ao tornar-se presente. Como, então, aprisionar-se em outro lugar se não no aqui e agora? Como querer outra coisa?

Mas o mundo é grande e as pessoas falam francês.

Hoje, eu fui à praia. Comecei, de repente, a contar as coincidências que tiveram que acontecer para exatamente aquele momento entrar para a existência. 1. Minha mãe teve que esquecer a canga dela na minha casa; 2. A mãe da criança chorando do meu lado teve que negar-lhe um picolé; 3. Os paulistas do meu outro lado tiveram que dizer (repetidamente) o quanto a Lapa é muuuito da hora, meu; 4. O casal à minha frente teve que ter aquela DR ontem à noite e acordar no maior climão; 5. Eu tive que emprestar, há três anos, a parte de baixo que vai com a parte de cima do biquini que estou usando e inaugurar uma nova combinação (muito mais descolada);  6. Tive que botar meu livro na bolsa e ficar com preguiça de lê-lo e deixá-lo na bolsa mesmo; 7. O cara que me vendeu meu mate teve que ter um dilema ético sobre usar água da mangueira ou da torneira; 8. Eu tive que decidir se fazia xixi no mar ou segurava até chegar em casa; 9. O mar teve que estar gelado. (O mar teve que estar tão gelado?).

E de repente, de férias do tempo você sente saudade do futuro e começa a inventar.

Sobre o Espaço-Tempo, como separar as partes?

Ainda sobre o Espaço-Tempo: aparentemente uma sonda espacial da Nasa comprovou que “a massa da Terra está muito sutilmente causando uma curvatura no tempo e no espaço ao seu redor ao arrastá-los consigo.” Lá se foi a linearidade do tempo, não é mesmo?

(Eu sei que isso é basicamente a lei da relatividade mas cês tem que entender que para a mente de humanas isso é uma doi-de-ra.)

Ainda assim, sabendo da relatividade do tempo, unindo para todo o sempre o Espaço-Tempo, desconsiderando os consideráveis universos paralelos onde tudo isso está acontecendo só que com mínimas e gigantes diferenças, o fato é que continuamos aqui. Eu continuo com dois biquinis diferentes, bebendo meu mate duvidoso, tentando estimar se consigo esperar até chegar em casa para fazer xixi. Isso não poderia estar acontecendo em francês porque está acontecendo de verdade aqui e agora. Por que achamos que existe outra opção?

Mas há algo realmente bonito no ato de lembrar. É o reencontro de algo perdido, ou que se pensava perdido. Talvez seja isso— a impressão de que não perdemos de fato, só esquecemos, coisa temporária, com solução. Burlar a perda é tão tentador que aceitamos esquecer para lembrar depois. E de fato, maior alívio não há do que lembrar que o mundo é grande e as pessoas falam francês.

Mas não temos outra opção. Não podemos segurar os segundos com as mãos, não podemos prender o céu com alfinetes. E queremos, queremos desesperadamente apertar o pausa e só respirar e olhar, talvez ensaiar o próximo momento. Mas não podemos, já passou.

E então, esperamos. Esperamos a vida começar enquanto ela já começou e já passou e já era. Usamos o presente como se fosse futuro, e quando vemos já é passado. E está perdido, a ser resgatado apenas pela memória, aquela que poucas vezes adere ao desejo e prefere ressuscitar aquilo que queremos manter bem enterrado.

Mas o mundo é grande e as pessoas falam francês.